O manejo do Cacau Nativo pelos extrativistas que habitam as margens do rio Purus, em Boca do Acre AM, adquire grande importância, na medida em que contribui para a geração de trabalho e renda na região e, por conseguinte, para a melhoria das condições sociais desses pequenos produtores. O manejo do cacau promove o uso sustentável da diversidade biológica existente no ecossistema florestal da Amazônia, uso este, por sua vez, que se apresenta como uma saída para a manutenção da floresta.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
sexta-feira, 12 de junho de 2015
domingo, 7 de junho de 2015
Cacau nativo comporá cesta de produtos florestais
* Ecio Rodrigues
Decerto que a ampliação
do número de produtos florestais que podem ser manejados por comunidades que
habitam o ecossistema florestal da Amazônia é uma das diretrizes para
viabilizar a atividade do manejo florestal comunitário – que, por sua vez, se
configura na principal, senão única, alternativa econômica à criação de boi.
O manejo florestal
comunitário surgiu no Acre no início da década de 1990, em especial após a
criação das reservas extrativistas. Portanto, a despeito de não ser ainda
objeto de consenso, trata-se de uma tecnologia concebida e testada com sucesso há
25 anos, tendo ganhado força em toda a Amazônia.
A expectativa inicial era
a de que, no curto prazo – até 2010, digamos –, pelo menos 20.000 seringueiros
transformados em manejadores florestais aderissem a essa tecnologia, para ofertar
uma cesta variada de produtos florestais, incluindo-se, obviamente, a madeira.
Frustrou-se a
expectativa, e passos lerdos têm sido dados desde então. Vez ou outra aparece
um produto que ganha alguma importância comercial e faz com que as atenções se
voltem para o manejo florestal comunitário. Uma atenção fugidia, que logo recua
ao lugar comum da nefasta criação de boi realizada no interior da floresta.
É provável que a
principal novidade, nas idas e vindas entre o manejo florestal e a pecuária
praticada nas reservas extrativistas (ou em áreas de floresta ainda sem regularização
fundiária definida), seja a produção de cacau nativo.
O componente que diferencia
o cacau nativo em relação à pupunha, à seringueira, à pimenta longa, entre outros
produtos florestais que ganharam importância comercial, reside no fato de que o
cacau não pode ser (novamente) domesticado: a domesticação desse produto ocorreu
lá atrás, ainda no século XVII.
Quer dizer, é como se
fosse, o cacau nativo, um novo produto introduzido no mercado, que não concorre
com o cacau domesticado, melhorado geneticamente e caracterizado pela alta
produtividade. Em face do sabor original que marca o seu chocolate, o cacau
nativo apresenta o que os economistas chamam de “nicho de mercado”, ou seja, um
público com necessidades ou exigências específicas, cuja exploração pode representar
grande oportunidade de negócio.
Atualmente praticado
pelos ribeirinhos do Purus, o manejo comunitário do cacau nativo tem potencial
para ser aplicado em outras partes da Amazônia. A boa notícia é que os
expedientes técnicos para a elaboração do respectivo Plano de Manejo Florestal já
foram desenvolvidos.
O Plano de Manejo serve
a dois fins. Primeiro, orienta os manejadores quanto aos procedimentos executados
durante todo o processo produtivo, empregando inovações tecnológicas no intuito
de alcançar a produtividade demandada pelo mercado.
Segundo, possibilita o licenciamento
ambiental da atividade perante os órgãos de controle, e o monitoramento da
produção florestal, o que fornece segurança para o manejador.
Mas, para elaborar um
documento com esse nível de exigências é necessário um cabedal de informações
subsidiárias.
Mediante projeto de
pesquisa empreendido no Acre em 2007, sob o apoio do CNPq, logrou-se conceber
metodologia para o levantamento de algumas dessas informações, a saber:
mapeamento da dispersão dos povoamentos de cacau por meio de imagens de satélite
de média resolução (para o levantamento da ocorrência de cacau); inventário do
cacau nativo (para o levantamento da quantidade de pés de cacau existentes no
local de ocorrência); aferição da importância do cacau para a geração de
emprego e renda junto aos manejadores; e otimização do sistema produtivo.
O desafio principal foi
superado e a tecnologia, desenvolvida; falta convencer os políticos que manejar
cacau é melhor que criar boi. Mas isso leva tempo. Muito tempo.
* Professor Associado da Universidade Federal do Acre,
Engenheiro Florestal, Especialista em Manejo Florestal
e Mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná e Doutor em Desenvolvimento
Sustentável pela Universidade de Brasília.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
Rotular transgênicos não resolve nada
* Ecio Rodrigues
O governo não consegue expor para a sociedade,
de forma clara, a posição do Estado brasileiro em relação aos organismos
geneticamente modificados, os chamados transgênicos. Entre a ojeriza da
sociedade pouco informada e a completa omissão da classe política, as
discussões sobre a matéria sempre ocorrem como se fosse a primeira vez, como se
a produção de transgênicos no Brasil não fosse uma realidade.
Mal comparando, é mais ou menos o que acontece
com o tema das hidrelétricas. Existem mais de 120 usinas hidrelétricas em
funcionamento no Brasil e não há a menor possibilidade de que não venham a ser construídas,
no mínimo, outras 50. Mas a sociedade gosta de se posicionar contrariamente à
construção de cada nova usina.
A explicação para esse paradoxo está
justamente na omissão dos políticos, que, temendo perder votos, não esclarecem
que a opção pela geração de energia elétrica por meio do aproveitamento da
força das águas foi feita pelo país há pelo menos 50 anos. No final das contas,
não se discute o que tem que ser discutido, ou seja, o porquê dessa opção e as
suas decorrências.
No caso dos transgênicos, aliás, discursar
contra e decidir a favor tem sido a máxima empregada pelos políticos, sobretudo
nos últimos 10 anos.
A primeira legalização de um plantio de
sementes geneticamente modificadas em território brasileiro ocorreu em 2003. O
Brasil, atualmente, é um dos líderes mundiais na produção de soja transgênica.
Por outro lado, grande parte dos produtos do
agronegócio – soja, algodão e milho, para ficar nos mais comuns – já se encontra
no que os especialistas chamam de terceira geração do melhoramento genético.
Para exemplificar, vamos dizer que certa
espécie importante para alimentar, vestir ou transportar a humanidade foi
alterada em sua genética, a fim de resistir ao ataque de uma vespa. Antes da
primeira geração modificada dessa espécie, a vespa era controlada por meio do
uso de agrotóxicos, o que passou a não ser mais necessário.
Continuando, digamos que a espécie do exemplo se
deteriorasse rapidamente. Da colheita ao supermercado ou à sua industrialização,
suportasse não mais que 24 horas. Um prazo que foi alargado para cinco dias com
a segunda geração modificada da espécie.
Porém, o cultivo totalmente mecanizado da
espécie rendia duas toneladas por hectare de matéria-prima, o que era pouco
para atender à demanda da humanidade. A ampliação do plantio iria requerer o
desmatamento de 100 mil hectares de florestas todos os anos, a um custo
elevadíssimo. Com a terceira geração, a produtividade foi multiplicada por
quatro.
Dispensar a identificação explícita no rótulo
dos produtos cuja industrialização emprega até 1% de espécies transgênicas,
como aprovado pela Câmara em abril último, contribui para reduzir a omissão dos
políticos. Esse, sim, o maior problema. Se o país não sabe se libera ou não o
cultivo dos transgênicos, não pode se aferrar à discussão do rótulo.
O ponto não está no
rótulo, mas na opção que o país fez, de basear sua economia no agronegócio. O
agronegócio brasileiro, para não perder competitividade, está aderindo à
produção de transgênicos, como fizeram os americanos e os chineses.
No frigir dos ovos, a produção de transgênicos
exige regulamentação internacional, o que, por sinal, tem sido tema de debate
no âmbito da ONU. Mas desprezar o emprego de espécies geneticamente modificadas
no agronegócio é um tiro no pé. Nenhum produtor, ou região produtora, ou,
ainda, nenhuma nação para a qual o agronegócio representa quase a metade de seu
Produto Interno Bruto, como é caso do Brasil, irá deixar de usar espécies
transgênicas, se os demais países usam.
Discursar sobre a afixação duma caveira no
rótulo dos produtos agrada e não resolve nada. Mas parece que a ideia é essa.
*
Professor Associado da Universidade Federal do Acre, Engenheiro Florestal,
Especialista em
Manejo Florestal e Mestre em Política Florestal pela
Universidade Federal do Paraná e Doutor em Desenvolvimento
Sustentável pela Universidade de Brasília.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Terceirização no setor florestal na Amazônia
* Ecio Rodrigues
Ainda que setores ditos progressistas da política
nacional, com certo apoio da mídia, tenham considerado como retrocesso a
eleição, para a presidência da Câmara, de um representante da bancada evangélica
(cujas posições são muitas vezes questionadas pelos movimentos ligados aos
direitos humanos), uma coisa é inegável: a produtividade dos parlamentares
aumentou visivelmente.
Ao que parece, um pouco de personalidade e a recusa
em manifestar subserviência na relação com o governo federal foram o bastante
para conferir eficiência à atuação do presidente da Casa do Povo. Sem receio de
contrariar o Executivo, os deputados estão sendo levados a discutir projetos polêmicos,
antes engavetados por orientação do governo.
Como é o caso do projeto de lei que regulamenta
a terceirização de serviços. A despeito do fato comprovado pela ciência
econômica de que a terceirização decorre da especialização do trabalho – que
por seu turno é ponto inexorável, ou seja, vai ocorrer por ser inerente ao
sistema capitalista – parece haver certa relutância da sociedade em aceitá-la.
No âmbito da atividade florestal exercida na Amazônia
não é diferente. Todavia, a relutância em aceitar a terceirização, nesse caso, importa
em manifesta contradição, que se amplia ante a pouca ou nenhuma informação disponível
sobre esse setor econômico crucial para a economia regional.
Acontece que os procedimentos relativos à
derrubada de uma árvore no interior da floresta amazônica; ao processamento
primário dessa árvore para o fim de transformá-la em toras; ao arraste das toras
aos pontos de estocagem; ao transporte das toras até uma indústria de processamento
– todos esses procedimentos, enfim, encerram uma grande quantidade de
operações.
Essa lista, evidentemente, não se encerra aí,
e cada um desses procedimentos requer a atuação de profissionais qualificados
e, portanto, especializados. A lógica é: quanto maior a especialização, maior
será a eficiência com que cada operação será realizada.
Por conseguinte, quanto maior essa eficiência,
maior será a produtividade de cada operação, e menor (talvez esse seja o ponto
mais importante) será o preço final a ser pago pelo consumidor. Significa dizer
que uma maior especialização do trabalhador representa a entrega de um produto
de melhor qualidade e menor custo para o consumidor.
Sem embargo, chegar a um nível tal de especialização
que se traduza em eficiência, maior qualidade e menor preço é tarefa impraticável
na alçada de um único empreendimento. Ainda mais levando-se em conta que parte
das operações acontece dentro da floresta, onde as condições de trabalho são,
para dizer o mínimo, muito complexas, e que a industrialização da madeira ocorre
mediante o emprego de máquinas pesadas e difíceis de operar.
A correlação entre a especialização do trabalhador,
a terceirização e o preço final do produto parece ser o ponto nevrálgico para
compreender a importância da primeira e a inevitabilidade da segunda.
Para resumir, sem querer causar controvérsia: no
que se refere à atividade florestal na Amazônia, não há especialização sem
terceirização – simples assim. E para ser ainda mais incisivo, a terceirização
florestal se processa desde a função elementar de abrir picadas (desempenhada
pelo chamado “picadeiro”) até o serviço especializado exercido pelo engenheiro
florestal.
Para o cluster florestal da Amazônia, a especialização
do trabalhador e a decorrente terceirização do trabalho serão, sempre, as mais
amplas possíveis.
*
Professor Associado da Universidade Federal do Acre, Engenheiro Florestal,
Especialista em
Manejo Florestal e Mestre em Política Florestal pela
Universidade Federal do Paraná e Doutor em Desenvolvimento
Sustentável pela Universidade de Brasília.
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