segunda-feira, 25 de abril de 2016

Fim do verão e do inverno amazônicos desafia resiliência dos rios

* Ecio Rodrigues
Parece que as pessoas ainda não se deram conta dos efeitos decorrentes das mudanças no clima em seu cotidiano. Aqui na Amazônia é possível que o desaparecimento da histórica estacionalidade que sempre dividiu o ano em inverno e verão faça finalmente a ficha cair, como se diz.
Primeiro, é sempre bom reforçar que, na Amazônia, o desmatamento e sua ampliação anual a taxas persistentes e superiores a 5 mil km2 está na raiz de todos os males, em especial no que diz respeito ao aquecimento global.
Significa afirmar, sucintamente, que duas prioridades deveriam ser assumidas pelos gestores públicos como emergenciais: o reflorestamento das áreas já desmatadas e a redução a zero do desmatamento a partir de 2016.
Dito isto, cabe analisar, num despretensioso exercício de presciência, quais poderiam ser as consequências se as duas estações climáticas regionais – denominadas de inverno (alta pluviosidade) e verão (baixa precipitação) – viessem a se confundir, a ponto de a distinção entre ambas não ser mais perceptível.
A palavra-chave, aqui, é “adaptação”.
Como se sabe, existe estreito vínculo entre o comportamento das florestas e as estações do ano, principalmente em função das alterações na oferta de três insumos que as plantas e animais valorizam muito: água, temperatura e luz.
Para usar o exemplo da oferta de luz, diga-se que o fotoperíodo (como preferem os agrônomos) é bem maior durante o verão (que corresponde ao inverno amazônico). Durante esta estação as plantas ficam expostas à luz do sol por um tempo mais longo; por conseguinte, observa-se ampliação da fotossíntese e da produção de flores e frutos, o que, enfim, costuma ser bastante admirado pela fauna silvestre.
Se não mais houver distinção entre o inverno e o verão amazônicos, tanto os humanos quanto a fauna e a flora terão que se adaptar às novas condições climáticas.
Muitos haverão de considerar que a ocorrência de uma única estação climática, durante todo o ano, pode representar maior estabilidade na vazão dos rios e encerrar o ciclo dos traumas relacionados às alagações, como a que aconteceu em 2015.
Enganam-se. A estabilidade na pluviosidade não significa necessariamente o fim de eventos extremos. Ainda que a vazão dos rios se mantenha durante a maior parte do ano em níveis médios, alagações e secas vão continuar acontecendo – uma vez que as causas desses eventos estão vinculadas a fatores como desmatamento, quantidade de carbono jogada na atmosfera, aquecimento do planeta e alterações no clima.  
A palavra chave, nesse caso, é “resiliência”.
Entendendo-se resiliência como a capacidade de o rio retornar ao estágio original depois de sofrer algum tipo de impacto ou pela ocorrência de eventos extremos, pode-se dizer que maior ou menor resiliência representa recuperação rápida ou lenta, respectivamente, após uma alagação ou seca.
A resiliência está diretamente relacionada à vazão do rio e, sobretudo, à quantidade de biomassa florestal presente na mata ciliar. Assim, a taxa de desmatamento evidenciada em determinada bacia hidrográfica irá interferir diretamente na resiliência dos cursos d’água que integram essa bacia.
A adaptação ao fim do inverno e do verão demandará pesquisas sobre a resiliência dos rios e a interação entre água e floresta. Mas isso, hoje, não passa de utopia.

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Será o fim do verão amazônico?



* Ecio Rodrigues
Confirmando-se a hipótese que prevê a regularidade de distribuição, entre os 12 meses do ano, dos 2.000 milímetros anuais de chuva (número aproximado) que caem na Amazônia, não haverá diferença sensível que justifique a caracterização do inverno e do verão amazônicos.
Na expressão dos pesquisadores que acompanham as curvas de pluviosidade e temperatura na região, a histórica estacionalidade presente no clima tende a desaparecer, se for mantido o comportamento observado nos últimos anos.
Certamente que uma série de questionamentos surge diante da possibilidade de não haver mais as duas costumeiras estações. É importante alertar, todavia: não existe relação entre essa hipótese e a ocorrência de eventos extremos, como foi o caso da alagação recorde de 2015.
Na mesma medida, o tímido inverno que se observa agora, em 2016, e que tem apresentado precipitação reduzida, não traz necessariamente como consequência uma seca profunda a partir de julho. O raciocínio inverso também é válido, tendo em vista que a ocorrência de uma seca extrema não está, de antemão, descartada.
Como é fácil notar, é muito difícil fazer previsões sobre o comportamento do clima. Por sinal, nos últimos anos percebe-se certo frisson na mídia local quando se aproxima o tempo de perguntar: Vai alagar? Vai secar? Vai apartar?
Interrogações para as quais não existem respostas precisas, por uma razão singela: as perguntas estão erradas. Ocorre que análises sobre o comportamento de curvas de pluviosidade e outros parâmetros climáticos são realizadas com base em informações obtidas em séries históricas, que possibilitam estabelecer uma conexão estatística para reforçar determinada tendência, mas que não permitem nenhuma assertiva conclusiva sobre o futuro.
Contudo, a recorrência das perguntas sugere certa apreensão quanto ao que poderá ocorrer no futuro próximo. Sendo assim, diante da impossibilidade científica (e mística) de se prever o futuro quando o assunto é alagação e seca, 3 questões pertinentes deveriam ocupar os jornalistas.
A primeira delas diz respeito à existência de um sistema de alerta que permita se antecipar à tragédia, tal qual o modelo organizado e posto em funcionamento na Ásia no pós-tsunami. A experiência demonstra que a possibilidade de se prever o evento climático, mesmo que com pouco tempo de antecedência, reduz os efeitos nefastos das tragédias e os custos inerentes às obras de restauro.
Sistemas de alerta devem ser precisos, o que requer, além de investimentos em equipamentos sensíveis na detecção de alterações, a manutenção de equipe técnica permanente de monitoramento. Obviamente, quanto maior a antecipação mais eficiente será o sistema.
A segunda questão diz respeito ao que aqui se denomina “resistência pública”; ou seja, ao plano de contingência a ser seguido depois de acionado o alerta, o que envolve as estruturas passíveis de ser disponibilizadas para evacuação das populações, a existência de um fundo provisional para a cobertura de despesas e assim por diante.
Finalmente, a terceira questão se refere às ações a serem levadas a efeito, no médio prazo, para ampliação da resiliência do Rio Acre, isto é, para aumentar a capacidade de o rio assimilar e reagir a grandes flutuações de vazão.
O importante não é perguntar se a tragédia vai ocorrer, mas se estamos preparados para ela.

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Reitores de universidades federais não deveriam ser eleitos



* Ecio Rodrigues
Os alunos talvez desconsiderem, alguns servidores talvez entendam, e um grupo bastante seleto de professores talvez concorde, mas a eleição de reitores nas universidades federais se mostrou um grande equívoco.
Antes de continuar é bom esclarecer que não existem estatísticas que tratem da relação entre a eleição de reitores e o gerenciamento das universidades. Ou seja, não há dados que ilustrem eventual posicionamento quanto às vantagens ou desvantagens, em termos de gestão, da escolha dos dirigentes por meio desse pseudopleito eleitoral.
Pseudopleito, explica-se. Acontece que os eleitores não votam no reitor de forma direta. Escolhem (por meio de voto ponderado, ressalve-se) os candidatos que vão compor uma lista de indicados ao cargo de reitor.
Para entender. Embora haja eleições em todas as 62 universidades federais, a realização dos certames é amparada por uma legislação algo caótica, que prevê a realização de “consulta” junto aos 3 segmentos universitários (alunos, servidores e professores). Os mais votados nessa consulta passam a integrar uma lista tríplice apresentada ao Ministério da Educação, MEC, que escolhe o reitor entre os elencados.
Por conta da existência de um dito “acordo de cortesia” pactuado entre o MEC e as universidades (um acerto um tanto hipócrita, aliás), o candidato mais votado é sempre o escolhido.
Como dito, a consulta se realiza por meio de voto ponderado. Significa que o voto de cada segmento possui peso diferenciado: pelas regras, o voto do professor tem peso de 70%; o voto do servidor, de 15%; e o do aluno, de 15%. Grosso modo, pode-se dizer que cada voto de professor equivale aos votos de 5 alunos ou de 5 servidores.
Outro ponto inusitado dessa consulta que todos tratam como eleição é o fato de que reitor e vice-reitor são votados separadamente. Quer dizer que não se vota numa chapa, como ocorre com presidente e vice, governador e vice etc. No caso das universidades, os votos são usados para compor duas listas independentes: uma, com os mais votados para o cargo de reitor; a outra, com os mais votados para vice-reitor.
Sem embargo, os candidatos montam chapas e fazem campanhas bem no estilo acirrado da década de 1980. Um estilo cansativo, que não atrai os eleitores e que parece ultrapassado até mesmo para a realidade dos sindicatos, que teimam em não se atualizar. Não à toa, cada vez menos votantes acorrem às urnas.
Em que pese a menção às esquisitices desse processo consultivo, não se propõem aqui soluções para aprimorá-lo – trata-se simplesmente de negá-lo.
Mas, convenhamos, negar que a eleição é o melhor caminho para contratar o reitor de uma universidade federal não é tarefa fácil. Por sinal, aqueles que vivenciaram o clima nas universidades na década de 1970 devem estar se perguntando qual poderia ser, então, a alternativa à eleição.
Fácil entender o questionamento. Quem viu coronéis nomeando sargentos (as patentes não eram necessariamente essas) para o cargo de reitor e defendeu a eleição como um baluarte da democracia não vai acreditar que tudo deu errado.
O problema é que o pseudopleito, além de ser muito questionável do ponto de vista democrático, revelou-se inadequado para selecionar os melhores para o cargo de reitor – cujo perfil deveria ser ou de um excelente gestor publico, ou de um cientista renomado, ou ambos. Mas ninguém vota num candidato por esses atributos.
Nada pior e mais nefasto para a universidade do que um inapto para o cargo ser alçado à condição de reitor sob o poderoso lastro de uma eleição que não deveria sequer ter acontecido e que, talvez por isso mesmo, cada vez é menos representativa.
Para a escolha de um reitor deve haver outro caminho. O caos nas universidades federais evidencia isso.

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.