* Ecio Rodrigues
Poucos
se dão conta de que a trajetória das queimadas no Acre assumiu uma dinâmica
perigosa, para dizer o mínimo. Embora passem despercebidas pela imprensa, as
medições não deixam dúvida que o aumento ocorrido em 2015 – quando os satélites
captaram 5.512 focos de calor em todo o território estadual – exige medidas
emergenciais, que deveriam ter sido tomadas já em janeiro último.
Acontece
que o relatório publicado pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais, Inpe,
no âmbito do Programa de Monitoramento de Queimadas e Incêndios, uma parceria
entre o Ministério da Ciência e Tecnologia e o Ministério do Meio Ambiente,
está disponível desde o final de 2015, com dados que nos põem de cabelo em pé –
como diziam as nossas queridas avós.
Além
de configurarem fato consumado (quer dizer, não se trata de suposições e sim de
dados coletados em tempo real), as informações monitoradas mostram que desde
1998, quando se iniciaram as medições, não aconteciam no Acre tantas queimadas
como em 2015.
Mas,
se é assim, uma questão surge de pronto (embora, ao que parece, ninguém esteja interessado
na resposta): como é possível ter ocorrido expressivo aumento na quantidade de
queimadas no Acre em 2015, se a população de Rio Branco não sentiu as
consequências, pelo menos com a mesma intensidade de outros anos?
A
resposta não poderia ser diferente e remete à dinâmica assumida pelo novo ciclo
de desmatamento e queimada, cujo vetor toma a direção da rodovia BR 364, no sentido
Rio Branco-Cruzeiro do Sul.
Explicando
melhor, a razão pela qual o rio-branquense não percebe os efeitos das queimadas
da mesma forma como percebia em anos anteriores pode ser resumida assim: o Acre
está queimando mais, porém mais longe do vale do rio Acre.
Por
sinal, o estudo da dinâmica assumida por esse novo ciclo de queimadas deveria
ser prioridade para os pesquisadores, uma vez que pode explicar boa parte do comportamento
observado na vazão dos rios do Acre e a peculiar periodicidade das secas e alagações.
Para dar
uma ideia da dimensão do problema representado pelo recorde de queimadas no Acre
em 2015, basta constatar que somente em dois anos houve mais de 4.000 focos de queimada
no estado: em 2005 (quando o desmatamento chegou a cifras elevadíssimas na Amazônia)
e em 2010.
Outra
informação crucial para fins de análise comparativa é que em 1999 aconteceram
somente 333 queimadas no Acre. É o menor índice em toda a série histórica e não
há como justificar essa cifra em função da crise econômica então vivida no
país. Associar economia aquecida ao aumento das queimadas pode ser um erro.
Em
2015, o país teve um crescimento negativo no Produto Interno Bruto,
correspondente a –3,9%. De longe, um dos piores de sua história recente. O
desemprego alcançou níveis alarmantes, da mesma maneira que a taxa de
fechamento de empresas. Senão todos, a maioria dos indicadores econômicos apresentou
resultados sofríveis.
Ou
seja, a economia do país chegou ao fundo do poço, enquanto as queimadas em
território estadual se multiplicaram de maneira assustadora. A lógica econômica
indicaria um aquecimento elevado na dinâmica econômica do Acre. Tá brincando?
O aumento
das queimadas em época de crise econômica é, sem dúvida, o pior dos mundos. O
precipício pode estar à vista, mas ninguém parece querer enxergar.
*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro
florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela
Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento
Sustentável pela Universidade de Brasília.
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